Cirurgia de próstata: plasma, laser, vapor ou HoLEP?

Ilustração de capa sobre cirurgia de próstata: o tamanho da glândula e o que o paciente quer preservar são os dois fatores que decidem a escolha da técnica

Quase todo homem que chega ao meu consultório com a próstata aumentada já ouviu falar de três ou quatro técnicas, e quase sempre chega com a mesma pergunta: qual é a melhor? Não é assim que a escolha funciona. O que restringe as opções é o tamanho da glândula, e o que desempata é aquilo que você faz questão de preservar.

Vou percorrer as técnicas com o que as diretrizes dizem de cada uma, incluindo o que o marketing costuma deixar de fora.

Infográfico com os dois fatores que restringem a escolha da cirurgia de próstata: o tamanho da glândula, com a faixa de 30 a 80 mL para plasma, vaporização a laser e Rezum e qualquer tamanho para o HoLEP, e a preservação da ejaculação, com o Rezum de um lado e plasma, ressecção clássica e HoLEP do outro
Fontes: diretriz europeia de urologia, 2026 · Canadian Journal of Urology, 2020

Antes de tudo: ejaculação e ereção não são a mesma coisa

Quando o paciente diz “não quero perder nada”, quase sempre está pensando em impotência. E a impotência é justamente o que costuma não acontecer.

Uma revisão que reuniu 151 estudos e mais de 20 mil pacientes não encontrou mudança estatisticamente significativa no escore de ereção depois dessas cirurgias, nem com a ressecção, nem com o laser, nem com as técnicas minimamente invasivas.

O que muda com frequência é a ejaculação retrógrada. O sêmen, em vez de sair pela uretra, vai para a bexiga e depois é eliminado na urina. Não dói, não afeta o orgasmo nem a ereção, mas altera a ejaculação. Para quem ainda pensa em ter filhos, ou para quem simplesmente se incomoda, isso pesa na decisão. É por causa dessa diferença que existem técnicas desenhadas com esse objetivo.

O quadro completo

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TécnicaTamanho nos estudosEjaculaçãoDurabilidadeDiretriz europeia
Plasma (ressecção bipolar)30 a 80 mLMesmo mecanismo da ressecção clássica; sem dado próprio publicadoComparável à ressecção clássicaForte, junto da ressecção monopolar
GreenLight (vaporização a laser)30 a 80 mLSem percentual próprio confirmadoNão inferior à ressecção no primeiro ano; dados de longo prazo menos consistentesForte; para quem usa anticoagulante há recomendação própria, de força fraca, abaixo de 80 mL
Rezum (vapor d’água)30 a 80 mLSem piora significativa nos questionários de ejaculação4,4% precisaram de nova cirurgia em 5 anosNão figura entre as recomendações graduadas
HoLEP (enucleação a laser)Qualquer tamanhoRetrógrada na grande maioria4,7% de reoperação em 10 anos, nenhuma por recrescimentoForte, alternativa à ressecção e à cirurgia aberta
Prostatectomia simples robóticaPróstatas grandes, sem limite superiorRetrógrada na grande maioriaDesfechos funcionais equivalentes aos da cirurgia abertaSubstitui a cirurgia aberta, que a diretriz indica de forma forte quando não há enucleação disponível

Existem outras técnicas com boa posição nas diretrizes internacionais, como o UroLift e a hidroablação robótica. Não entraram na tabela por um motivo prático: este texto é sobre o que você consegue de fato realizar aqui. Volto a elas mais adiante.

O que o marketing não conta sobre o plasma

O plasma é o nome comercial da ressecção bipolar, e resolve muito bem. Mas circula a ideia de que, por ser “mais moderno”, preservaria a ejaculação. Não preserva. O plasma remove o mesmo tecido e mexe no mesmo colo da bexiga que a ressecção clássica.

A revisão Cochrane que comparou as duas, com 59 estudos e quase 9 mil pacientes, sequer mediu ejaculação retrógrada. Ausência de dado não é o mesmo que preservação.

O ganho real do plasma existe, e é de segurança. Ele reduz a necessidade de transfusão e torna rara a antiga síndrome de absorção de líquido. Na melhora dos sintomas, a diferença entre bipolar e monopolar foi de 0,24 ponto num escore que vai até 35, uma diferença que os estudos detectam e o paciente não sente.

Infográfico com dois mal-entendidos comuns sobre cirurgia de próstata: o plasma não preserva a ejaculação, porque assim como a ressecção clássica costuma causar ejaculação retrógrada, e laser não é uma técnica só, porque HoLEP e GreenLight são cirurgias diferentes

E o “laser”? Depende de qual

“Vou fazer a laser” é uma frase que não diz nada sozinha, e o mal-entendido aqui pode ser sério.

O GreenLight vaporiza o tecido. O HoLEP enuclea: descola o adenoma inteiro de dentro da cápsula da próstata. São procedimentos diferentes, com desfechos diferentes.

O HoLEP é o mais completo dos dois e o único sem teto de tamanho. Também é o que mais causa ejaculação retrógrada, na grande maioria dos operados. Um paciente que ouve “é a laser, você mantém tudo” e recebe um HoLEP foi mal informado. Prefiro dizer isso antes, mesmo que soe menos vendável.

Em compensação, o HoLEP é o mais versátil e o de seguimento mais longo publicado. A literatura o descreve como o padrão-ouro independente do tamanho da próstata, e essa expressão não é força de expressão: é o título de uma revisão publicada no Canadian Journal of Urology. A diretriz europeia o recomenda de forma forte sem estabelecer teto de volume, e a associação americana o classifica explicitamente como técnica “independente do tamanho”. Nenhuma outra opção da tabela tem isso.

Numa série de 125 homens acompanhados por dez anos, com próstatas de tamanho mediano em torno de 78 mL, 4,7% precisaram de nova operação, todas por estreitamento do colo da bexiga ou da uretra, nenhuma por recrescimento da próstata. Vale a ressalva: cerca de um quarto voltou a ter sintomas ao longo da década, e é uma série de um único cirurgião experiente. É o dado mais longo que existe, não uma garantia.

O ponto que muda a vida de quem já esperou demais

Há um cenário em que essa versatilidade importa muito, e quase ninguém escreve sobre ele. É o do homem cuja bexiga já perdeu força de contração depois de anos de obstrução, aquilo que chamamos de bexiga hipocontrátil ou acontrátil. Muitos deles chegam de sonda, e muitos já ouviram que operar não adiantaria.

Um estudo publicado em 2025 acompanhou 26 homens exatamente nessa situação, entre bexiga hipocontrátil e acontrátil, submetidos a HoLEP. Dezessete deles dependiam de cateter antes da cirurgia. Todos voltaram a urinar espontaneamente. O escore de sintomas caiu de 24 para 11 pontos, o fluxo saiu de zero para 14,4 mL por segundo e o resíduo pós-miccional despencou de 325 para 45 mL.

São 26 pacientes, um número pequeno, e não transformo isso em promessa. Mas é o tipo de resultado que muda a conversa com quem foi informado de que já não havia o que fazer. Desobstruir amplamente, que é o que a enucleação faz, continua valendo mesmo quando a bexiga já sofreu.

O Rezum, com a conta inteira

É hoje a principal opção para quem quer preservar a ejaculação, e cumpre isso. O que costuma ser omitido é o outro lado.

O Rezum mostrou 4,4% de retratamento cirúrgico em cinco anos, e os questionários de função ejaculatória não pioraram. Vale saber que ele não figura entre as recomendações graduadas da diretriz europeia, e que num levantamento de mundo real o vapor apresentou a maior taxa de complicações no primeiro ano entre as opções analisadas.

Uma transparência que raramente aparece nesses comparativos: esses 4,4% vêm do ensaio pivotal financiado pelo próprio fabricante, e o levantamento de mundo real que citei foi patrocinado pela fabricante de uma técnica concorrente. Isso não invalida os dados. Significa que eles pedem leitura com desconto, e é o tipo de coisa que eu diria a você sentado na minha frente.

Por que o UroLift saiu de cena por aqui

O UroLift ocupava esse mesmo lugar: preservar a ejaculação em próstatas menores, sem lobo mediano. A diretriz europeia ainda o recomenda com força para esse perfil, acrescentando, em recomendação fraca, que o paciente seja avisado de que o retratamento é mais frequente que na ressecção. E é: 13,6% de nova cirurgia em cinco anos no próprio estudo que o aprovou.

O que tirou o UroLift da prática brasileira não foi a evidência, foi o custo. Na conta que o paciente efetivamente enfrenta aqui, o Rezum passou a ocupar praticamente as mesmas indicações. É um exemplo de por que diretriz internacional e realidade local não são a mesma conversa — e a segunda é a que decide o seu caso.

Pelo mesmo motivo não incluí a hidroablação robótica na tabela. Ela tem recomendação forte na diretriz europeia, inclusive para preservação da ejaculação, mas não faz parte da rotina brasileira e não é um caminho que eu ofereça.

Quando a via endoscópica não serve: a prostatectomia simples robótica

Todas as técnicas até aqui entram pela uretra. Existe um grupo menor de pacientes em que essa rota não resolve, e para eles a próstata é abordada por dentro do abdome, com a mesma plataforma robótica usada na cirurgia oncológica. É a versão minimamente invasiva da antiga prostatectomia aberta.

A diretriz europeia indica a cirurgia aberta com força para próstatas acima de 80 mL, mas com uma condição escrita dentro da própria recomendação: na ausência de enucleação endoscópica. Essa condição muda tudo. Onde existe HoLEP, tamanho deixa de ser motivo para abrir. A associação americana vai na mesma direção e reserva a prostatectomia simples às próstatas grandes e muito grandes, com recomendação moderada e evidência de grau C.

O que sobra são as situações em que a via endoscópica não serve por outro motivo:

  • Quando o paciente não pode ser posicionado. A cirurgia transuretral exige a posição de litotomia. Limitação de quadril ou de coluna que impeça esse posicionamento é indicação clássica da via abdominal, e aparece assim nas duas fontes que consultei.
  • Quando há outra coisa para resolver dentro da bexiga. Divertículo vesical volumoso ou cálculo grande demais para o tratamento endoscópico podem ser resolvidos no mesmo tempo cirúrgico, por dentro da bexiga já aberta.
  • Quando a enucleação endoscópica não está disponível para aquele paciente, naquele serviço.
Infográfico com as três situações que levam à prostatectomia simples robótica: impossibilidade de posicionar o paciente em litotomia, cálculo ou divertículo na bexiga a tratar no mesmo tempo cirúrgico, e próstata acima de 80 mL onde não há enucleação disponível
Fontes: diretriz europeia de urologia, 2026 · Cleveland Clinic Journal of Medicine, 2023

Uma revisão que reuniu 15 estudos e mais de 6.600 pacientes mostrou o que se ganha em relação à cirurgia aberta: menos sangramento, menos transfusão, menos complicações e internação mais curta, com o mesmo resultado funcional. E mostrou também, com honestidade, o que se perde em relação ao HoLEP: mais tempo de sonda, mais dias internado e mais transfusão, com resultado funcional equivalente.

Dois casos em que a intuição aponta para o lado errado

Duas situações parecem pedir a via abdominal e, na literatura publicada, pedem o contrário. Trago as duas porque são exatamente as que costumam gerar dúvida.

A primeira é a estenose de uretra. Se o instrumental não passa, a saída descrita não é abrir o abdome: é resolver o acesso. Uma série publicada em 2026 fez HoLEP através de uma uretrostomia perineal em 18 homens com estenose longa da uretra anterior. Todos urinavam livremente aos doze meses e nenhum precisou de uretroplastia depois, embora 27,8% tenham tido perda de urina transitória. São 18 pacientes, não é um número grande — mas os autores apresentam o caminho explicitamente como alternativa à prostatectomia simples aberta e robótica.

A segunda é a prótese peniana. Aqui a orientação publicada é o inverso do que a intuição sugere: recomenda-se a rota transuretral menos invasiva possível, com a bainha mais fina que resolver, justamente para evitar a sonda prolongada e o risco de contaminar ou danificar o reservatório da prótese. A revisão que trata do assunto desaconselha a prostatectomia simples nesse cenário. Vale a ressalva de que essa literatura é escassa e sem série comparativa.

A leitura prática, então, é mais estreita do que costuma se dizer. Quando a via endoscópica é possível, a enucleação costuma ser a rota mais eficiente, inclusive nas próstatas muito grandes. Quando não é, a via robótica resolve com muito menos agressão o que antes só a cirurgia aberta resolvia.

Como a escolha acontece na prática

  • Próstata acima de 80 mL. A lista encurta bastante, e o HoLEP passa a ser a opção com melhor documentação, por não ter limite de tamanho.
  • Impossibilidade de posicionar o paciente, ou bexiga com divertículo ou cálculo volumoso. Aí a conversa vai para a prostatectomia simples robótica, que resolve tudo no mesmo tempo cirúrgico.
  • Bexiga já hipocontrátil, com ou sem sonda. A desobstrução ampla da enucleação segue fazendo sentido, e é onde o HoLEP mais se diferencia.
  • Entre 30 e 80 mL, sem exigência de preservar ejaculação. Ressecção, de plasma ou clássica, e GreenLight resolvem bem, com muita estrada rodada.
  • Preservar ejaculação é prioridade. A conversa vai para o Rezum, e vem junto a informação honesta sobre durabilidade e chance de precisar de nova intervenção.
  • Uso de anticoagulante. Muda a escolha. A diretriz europeia tem recomendação específica de vaporização a laser para esse cenário, com força fraca e abaixo de 80 mL.
  • Sintomas muito arrastados, bexiga já sofrida. Aqui o tempo importa mais que a técnica, e escrevi sobre isso em o perigo de perder o timing da cirurgia.
Infográfico com o ponto de partida da escolha da cirurgia de próstata por situação: próstata acima de 80 mL leva ao HoLEP, preservar a ejaculação leva ao Rezum, bexiga já fraca leva ao HoLEP com desobstrução ampla, uso de anticoagulante leva à vaporização a laser abaixo de 80 mL e via endoscópica inviável leva à prostatectomia simples robótica; a decisão é compartilhada, com o exame, a prioridade do paciente e avaliação individual

No meu consultório em Goiânia, as técnicas que ofereço são o HoLEP, a vaporização a laser, a ressecção a plasma, o Rezum e a prostatectomia simples robótica. Elas cobrem, na prática, todo o espectro: da próstata pequena que precisa preservar ejaculação à próstata muito grande que exige enucleação. A escolha real acontece no cruzamento entre o que a diretriz recomenda, o que existe perto de você e quem tem volume cirúrgico naquela técnica.

Nada disso decide sozinho

A lista acima é ponto de partida de conversa, não protocolo. O que você prioriza, o que aceita trocar e o que não abre mão entram na conta com o mesmo peso que o exame. A diretriz americana de 2026 abre o resumo do capítulo cirúrgico colocando a decisão compartilhada como a condição para ajustar a conduta a cada pessoa, e não como cortesia.

Na prática isso significa uma coisa simples de dizer e difícil de encontrar em anúncio: duas próstatas do mesmo tamanho, no mesmo cirurgião, podem levar a duas operações diferentes. Quem decide entre elas não é a diretriz nem o equipamento disponível. É a avaliação individual, feita com você dentro da decisão, sabendo o que ganha e o que troca em cada caminho.

Quando procurar o Dr. Marcel

Vale marcar uma avaliação se você já acorda mais de uma vez por noite para urinar, se o jato enfraqueceu, se tem sensação de esvaziamento incompleto, ou se usa remédio para próstata há tempos e ele parou de dar conta.

A avaliação define o tamanho da glândula, o quanto a bexiga já foi afetada e qual conjunto de técnicas faz sentido para o seu caso. Só depois disso a escolha vira uma conversa concreta, com os números do seu exame na mesa.

Perguntas frequentes

Qual é a melhor cirurgia para próstata aumentada?

Não existe uma resposta única, e desconfie de quem der uma. O tamanho da próstata restringe as opções, e a sua prioridade desempata o resto, seja preservar ejaculação, evitar transfusão ou durar o máximo possível. Duas próstatas do mesmo tamanho podem levar a decisões diferentes.

A cirurgia de próstata a plasma preserva a ejaculação?

Não há dado que sustente isso. O plasma é a ressecção bipolar: remove o mesmo tecido e trabalha na mesma região que a ressecção clássica, que causa ejaculação retrógrada em cerca de metade dos operados nas séries agrupadas. A vantagem documentada do plasma é de segurança, com menos sangramento e menos absorção de líquido.

Vou ficar impotente depois da cirurgia de próstata?

É o medo mais comum e o menos justificado. A revisão que juntou 151 estudos não encontrou mudança significativa na função erétil depois desses procedimentos. O que muda com frequência é a ejaculação. São coisas separadas, e vale conversar sobre elas separadamente.

Preciso operar mesmo, ou dá para continuar no remédio?

Depende de como a bexiga está. Remédio controla sintoma e serve bem a muita gente. O problema aparece quando ele apenas ameniza enquanto a obstrução segue trabalhando contra a bexiga por anos. Existe um ponto em que a musculatura perde a capacidade de se recuperar, e ele passa despercebido justamente porque o alívio parcial tranquiliza.

Quanto tempo fico de sonda?

Varia por técnica e por paciente. Alguns procedimentos permitem retirada em cerca de um dia; outros exigem mais tempo do que o marketing sugere. É um dado para combinar na consulta, olhando o seu caso, e não para prometer em anúncio.


Dr. Marcel Cognette é urologista em Goiânia, com atuação em cirurgia minimamente invasiva da próstata e uro-oncologia.

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Dr. Marcel Cognette — Urologista e Uro-oncologista | CRM-GO 18.450 | RQE 11.228

Conteúdo educativo e de cunho informativo. Não substitui uma consulta: cada caso exige avaliação individual com um médico especialista para definir a conduta adequada.


Referências

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