Seu marido não vai ao urologista? O que muda aos 50

Infográfico com a diferença de 6,6 anos na expectativa de vida entre homens e mulheres no Brasil, a proporção de homens e mulheres que consultaram médico no último ano e o que a consulta urológica aos 50 avalia

Um brasileiro nascido em 2024 pode esperar viver 73,3 anos, segundo o IBGE. Uma brasileira, 79,9. Parte dessa diferença de 6,6 anos vem da violência e do trânsito, que levam os mais jovens. A parte que se decide depois dos 50 tem outra explicação provável, e ela passa pelo consultório. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 82,3% das mulheres tinham consultado um médico nos doze meses anteriores. Entre os homens, 69,4%.

Conheço a versão doméstica desses números. A esposa marca, acompanha e responde às primeiras perguntas enquanto ele garante que está tudo bem. Boa parte das primeiras consultas de homens com mais de 50 anos que atendo em Goiânia começou com alguém da família insistindo. E insistir faz sentido por um motivo simples. Aos 50, a consulta procura doenças que ainda não deram sinal, e é nessa fase que existem mais opções.

Infográfico com a diferença de 6,6 anos na expectativa de vida entre homens e mulheres no Brasil, a proporção de homens e mulheres que consultaram médico no último ano e o que a consulta urológica aos 50 avalia
Fontes: IBGE, Tábuas Completas de Mortalidade 2024 · IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde 2019 · Sociedade Brasileira de Urologia, 2020 · INCA, Estimativa 2026

Por que ir aos 50 se ele não sente nada?

Porque as doenças que o urologista procura nessa idade demoram a dar sinal. O câncer de próstata é o exemplo mais importante. O INCA estima 77.920 casos novos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, registrou 17.826 mortes pela doença em 2024 e descreve a fase inicial como silenciosa, sem sintoma em muitos pacientes. Atendo no Hospital Araújo Jorge, o maior centro oncológico do Centro-Oeste, e vejo com regularidade o que acontece quando o diagnóstico chega junto com o sintoma.

A Sociedade Brasileira de Urologia orienta que o homem procure o urologista a partir dos 50 anos mesmo sem queixa. Se ele é negro ou tem parente de primeiro grau (pai, irmão ou filho) com câncer de próstata, a idade cai para 45. Depois dos 75, a SBU só recomenda a avaliação a quem tem expectativa de vida acima de dez anos. E rastrear é uma decisão tomada em conjunto, depois de conversar sobre riscos e benefícios, inclusive o risco de encontrar um tumor que nunca daria problema.

O que se ganha ao encontrar a doença ainda dentro da próstata é ter escolha. O ProtecT, ensaio britânico que acompanhou 1.643 homens com câncer de próstata localizado por uma mediana de 15 anos, registrou 2,7% de mortes pela doença no conjunto, com pouca diferença entre operar, irradiar ou vigiar. O estudo trata do que fazer depois do diagnóstico, e o que ele mostra é que, com o tumor localizado, existe escolha. Uma delas é acompanhar sem tratar de imediato.

O que o urologista avalia numa consulta aos 50?

A consulta começa pela conversa, e ela demora. Quero saber se ele levanta à noite para urinar, se o jato enfraqueceu, se a ereção mudou, se fuma, como andam pressão e glicemia e se alguém na família teve câncer de próstata. Muitas dessas perguntas ele nunca respondeu para ninguém, e nem sempre responde na primeira tentativa. Quem sabe quantas vezes ele levanta de madrugada, em geral, é a esposa.

Depois vem o exame físico e o que for pedido a partir dele. A tabela resume o que avalio.

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O que avalioComoO que estou procurando
Próstata, risco de câncerPSA no sangue e toque retalAlteração que justifique investigar mais a fundo, com ressonância e, se for o caso, biópsia
Crescimento benigno da próstataRelato dos sintomas urinários; às vezes ultrassom e medida da urina que sobra na bexigaObstrução que já esteja cobrando da bexiga
EreçãoPergunta diretaUm sinal precoce de doença dos vasos
Rins e bexigaExame de urina e ultrassom, quando indicadoSangue na urina, cálculo, cisto ou nódulo no rim
Hábitos e risco cardiovascularPressão, peso, cigarro, glicemia, colesterolO que precisa seguir com o clínico ou com o cardiologista

O PSA sozinho não fecha diagnóstico, e um resultado alterado assusta mais do que deveria. Escrevi sobre isso em o que acontece depois de um PSA elevado e sobre o exame de toque, que ainda atrasa diagnósticos por medo.

Próstata aumentada é a mesma coisa que câncer?

São doenças diferentes, e podem coexistir no mesmo homem. O crescimento benigno da próstata, a hiperplasia, é quase uma regra do envelhecimento. Segundo a revisão do StatPearls, em estudos de autópsia ele aparece ao microscópio em 50% a 60% dos homens na faixa dos 60 anos e em 80% a 90% depois dos 70. Ter a alteração e sentir alguma coisa são coisas diferentes. Quem sente acorda mais de uma vez para urinar, nota o jato fraco e demorado e sai do banheiro com a sensação de que a bexiga não esvaziou.

O problema é conviver com isso por anos, às vezes com um remédio que alivia o sintoma enquanto a próstata segue crescendo. A bexiga paga a conta. Escrevi sobre esse limite em a armadilha do alívio e em bexiga fraca por causa da próstata.

Ereção entra na consulta?

Entra, e a pergunta serve para avaliar o coração tanto quanto a vida sexual. Depois dos 40, a dificuldade de ereção que se instala aos poucos é, muitas vezes, o primeiro sinal de que os vasos estão adoecendo. A explicação mais aceita, proposta por Montorsi em 2005, é que as artérias do pênis têm 1 a 2 mm de diâmetro, contra 3 a 4 mm das coronárias, e por isso uma placa do mesmo tamanho as compromete antes. O consenso Princeton IV, de 2024, recomenda tratar o homem com disfunção erétil como alguém sob risco cardíaco até que se prove o contrário. Expliquei essa relação em disfunção erétil pode ser um aviso do coração?. Se ele não fala disso com você, talvez fale comigo.

E se ele disser que está tudo bem?

Ele vai dizer, e discutir isso não adianta. O que funciona é logística. Marcar a consulta e avisar a data resolve mais do que pedir que ele marque. Encaixar na mesma semana do seu próprio check-up transforma o assunto em rotina do casal, e ninguém precisa justificar nada.

Também ajuda partir de um fato. Se o pai dele teve câncer de próstata, se ele levanta três vezes por noite, se a pressão anda alta, se o exame periódico da empresa mediu o PSA e ninguém leu o resultado, comece por aí. Um fato concreto dá a ele um motivo próprio para ir.

Se ele aceitar que você vá junto, vá. É comum no meu consultório, e a história clínica sai mais completa quando a companheira está na sala. Ameaça não funciona, nem comparar com o vizinho, nem a frase “na sua idade”.

Quando procurar o Dr. Marcel

Se ele tem 50 anos ou mais e nunca fez uma avaliação urológica, esse é o momento, sem esperar sintoma. Aos 45, se é negro ou tem parente de primeiro grau com câncer de próstata. Em qualquer idade, se há sangue na urina, jato fraco, mais de uma ida ao banheiro por noite ou dificuldade de ereção que persiste há meses.

Perguntas frequentes

Com que idade o homem deve começar a ir ao urologista?
A partir dos 50 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, mesmo sem sintoma. Homens negros e os que têm parente de primeiro grau com câncer de próstata começam aos 45. Quem tem sintoma urinário ou sexual não precisa esperar idade nenhuma, e depois dos 75 a avaliação fica restrita a quem tem expectativa de vida acima de dez anos.

Se o PSA deu normal, o toque retal ainda é necessário?
Na primeira avaliação, sim. O toque encontra alterações que o PSA não mostra, e o exame dura segundos.

Ele toma remédio para próstata há anos. Precisa voltar ao urologista?
Sim, mesmo que o remédio esteja funcionando. Ele controla o sintoma, e a próstata continua crescendo. Reavaliar de tempos em tempos serve para saber se a bexiga está esvaziando bem e se o tratamento ainda é o adequado para o tamanho atual da próstata. Quando deixa de ser, existem opções, e quanto mais cedo a decisão, melhor a bexiga chega nela.

Posso entrar na consulta com ele?
Se ele concordar, entre. Em algum momento posso pedir para falar com ele a sós, e isso faz parte da consulta.

Câncer de próstata dá sintoma no começo?
Muitas vezes, não. O INCA descreve a fase inicial como silenciosa. Por isso a avaliação começa pela idade e pelo histórico familiar, antes de qualquer queixa.

Dr. Marcel Cognette é urologista em Goiânia, com Fellowship em Uro-Oncologia pelo Hospital de Câncer de Barretos e atuação em cirurgia robótica.

Quer marcar a primeira consulta dele? Se vocês estão em Goiânia ou região, o WhatsApp abaixo serve para você escrever no lugar dele. A primeira avaliação é simples, e é nela que se define o que vale acompanhar.

Dr. Marcel Cognette · Urologista e Uro-oncologista

CRM-GO 18.450 | RQE 11.228 · WhatsApp (62) 99669-0101

Leia também: PSA elevado: o que realmente acontece depois do resultado alterado? · Toque retal: como é feito o exame e por que o medo ainda atrasa diagnósticos · Disfunção erétil pode ser um aviso do coração?

Referências

1. IBGE. Tábuas Completas de Mortalidade 2024. Agência IBGE Notícias, 28/11/2025 (esperança de vida ao nascer: homens 73,3 anos; mulheres 79,9 anos). Acesso

2. IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: acesso e utilização dos serviços de saúde. Agência IBGE Notícias, 04/09/2020 (consulta médica nos 12 meses anteriores: mulheres 82,3%; homens 69,4%). Acesso

3. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de próstata: versão para a população. Estimativa 2026–2028 e Atlas de Mortalidade (SIM, 2024). Acesso

4. Sociedade Brasileira de Urologia. Aconselhamento para o diagnóstico precoce do câncer de próstata. Portal da Urologia, 2020. Acesso

5. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-Year Outcomes after Monitoring, Surgery, or Radiotherapy for Prostate Cancer. New England Journal of Medicine. 2023;388:1547-1558. Acesso

6. Ng M, Leslie SW, Baradhi KM. Benign Prostatic Hyperplasia. StatPearls, NCBI Bookshelf, atualizado em outubro de 2024. Acesso

7. Montorsi P, Ravagnani PM, Galli S, et al. The artery size hypothesis: a macrovascular link between erectile dysfunction and coronary artery disease. American Journal of Cardiology. 2005;96(12B):19M-23M. Acesso

8. Köhler TS, Kloner RA, Rosen RC, et al. The Princeton IV Consensus Recommendations for the Management of Erectile Dysfunction and Cardiovascular Disease. Mayo Clinic Proceedings. 2024. Acesso